Sem status da marca, JAC T5 oferece espaço e bom recheio

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GLOBO.COM
10/08/2016
Sem status da marca, JAC T5 oferece espaço e bom recheio

Equipamentos do carro compensam adiamentos e mudanças de planos de produção no Brasil

RIO - Por fora, um jeitão de Hyundai ix35 genérico e reduzido: lá estão a grade em forma de trapézio e a carroceria num meio termo entre utilitário e minivan. Por dentro as semelhanças continuam, com o painel iluminado de azul e o formato do painel. Mas estamos a bordo de um JAC T5, chinês que é vendido no Brasil por preços a partir de R$ 63 mil (contra R$ 100 mil do original sul-coreano).

Porta aberta, e o que chama a atenção no T5 é a enorme tela (8”) do sistema multimídia, disponível apenas na versão topo de linha, de R$ 73 mil. Chave na ignição e a tal tela se acende toda pirotécnica, ostentando o nome JAC. Além de trazer rádio, o sistema exibe filmes, fotos (quem vai ficar vendo fotos no painel do carro?), lê USB, pareia o celular por bluetooth, tem câmera de ré e outros bichos. Nota-se que a vistosa central está ali para impressionar, tentando compensar a falta de status da Jianghuai Automobile Co.

A evolução no acabamento em relação aos primeiros JAC que chegaram aqui, em 2011, é enorme. A forração de couro desse T5 topo de linha é muito caprichada, com texturas variadas e pespontos vermelhos. Nas laterais, mais couro e cromados — até a chave de partida enche os olhos.

O espaço para passageiros e bagagem (entram carrinho de bebê, malas e muito mais) é ótimo — bem maior do que num EcoSport, por exemplo. A tampa interna que cobre a bagagem é de enrolar, recolhida por mola. Parece sólida, resistente e de ótima qualidade. Há ainda acionamento elétrico dos vidros nas quatro portas.

Por enquanto, o T5 só é vendido aqui com uma caixa manual de seis marchas (o automático, tipo CVT, só virá no ano que vem). Tem o pior trambulador da atualidade — seria ruim até para os padrões dos anos 70. Além de o curso da alavanca ser longo, seu acionamento é barulhento.

O câmbio dos antigos JAC J3 já não era grande coisa mas, ao menos, era justo (click, click) e preciso. Esse não: há que se usar de certa manha para engrenar a primeira, coisa que não víamos desde o Fiat 147.

A direção, de tão assistida, ficou levíssima e às vezes parece desconectada das rodas. Mas o que realmente não curtimos foi o excesso de suavidade da suspensão desse JAC. De tão mole, gera balanços laterais na estrada. A solução para isso não parece ser complicada: é provável que a simples adoção de um jogo de amortecedores com mais carga já deixe o carro mais agradável de guiar.

Dos chineses que chegaram ao Brasil no começo desta década, os JAC são os melhores. Mas ainda lhes falta refinamento no acerto “de chão”.

BEM DISPOSTO

O quadro de instrumentos tem termômetro de água do motor, algo que muitos carros modernos trocaram por uma luz espia amarela ao estilo “agora é tarde”. Quer zerar o consumo no computador de bordo? Meta a mão por dentro do aro do volante, encontre um botãozinho comprido (à moda Nissan March), e gire-o até você conseguir gerenciar as informações desejadas. Meio tosco...

Liga-se o motor, solta-se o freio de mão, e a luz diurna de posição, por LEDs, é acesa. Você não será multado por esquecer de ligar faróis.

Chamado de Green Jet, o motor flex de 1,5 litro é uma das melhores coisas do T5: é muito silencioso (o isolamento acústico também é caprichado) e bem disposto em qualquer faixa de rotação. Parece de cilindrada maior. Como o volante do motor é levinho, o motorista precisa de alguma sensibilidade para sair da imobilidade sem deixar o carro morrer. Nas partidas em ladeira, o hill-holder (das versões topo de linha) ajuda.

E lá vamos a 100km/h pela Via Dutra em 6ª marcha, a 2.100rpm. Ao longo de duas semanas, mesmo andando manso, fizemos 12,3km/l na estrada e 9,2km/l na cidade, com gasolina. Poderia ser melhor.

Na convivência, percebemos outras características. O rádio já fala alto desde o começo. Falta um ponto intermediário no início da escala de volume. O mesmo vale para o ar-condicionado: ou você gela, ou passa um certo calor.

FÁBRICA QUE NÃO SAI

O T5 agradará a quem quer um meio de transporte espaçoso e bem equipado, mas não liga muito para prazer ao dirigir.

O que queima o filme da marca são os sucessivos adiamentos e mudanças de planos quanto à produção no Brasil. A notícia mais recente é de que a empresa já não construirá mais uma fábrica: alugará um galpão para ter uma linha de montagem do T5 na Bahia, a partir do ano que vem.

Enquanto isso, as vendas despencaram, o valor de revenda caiu e a rede de concessionárias foi reduzida à metade — hoje, são apenas três lojas na cidade do Rio (Campinho, Del Castilho e Jacarepaguá). Essas coisas assustam o consumidor.